Perueiros de luxo invadem Confins

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Aliciadores do transporte clandestino de passageiros oferecem corridas em carros de luxo, no aeroporto de Confins, a preço mais baixo que o dos táxis convencionais

Aliciador:  Quer táxi?
Repórter: Sim. Estou indo para a fila…
Aliciador: Lá, você paga R$ 90. Aqui é R$ 75.
Repórter: Mas…
Aliciador: O senhor vai para onde?
Repórter: Para aquele hotel perto do shopping, antes do Centro.
Aliciador: dá para fazer por R$ 65.
Repórter: Tenho R$ 60 trocados. Pode ser?
Aliciador: Tudo bem. Espere lá na frente que te pego numa SpaceFox.

O Aeroporto Internacional Tancredo Neves, em Confins, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, tornou-se também ponto de embarque em veículos executivos que compõem a frota clandestina do transporte de passageiros, os chamados perueiros. A cena comum em áreas de desembarque de terminais aéreos, em que parentes e motoristas de empresas (alguns com placas com o nome do viajante) esperam pelos passageiros, em Confins ganha personagens novos: um batalhão de aliciadores oferecendo um arriscado serviço de táxi ilegal. A cada pouso, são pelo menos cinco falsos taxistas que se revezam na saída. O Estado de Minas foi abordado e seguiu numa dessas corridas, com preços atraentes, mas sem garantia de que chegaria ao destino sem inconvenientes.

Os carros dos ilegais são do segmento médio de luxo e chamam a atenção, mas escondem situações de documentação irregular e uma série de multas. Características comuns dos carros usados nessa atividade por aqueles que driblam as regras do transporte de passageiros e de trânsito e se favorecem até mesmo de aquisições de veículos por meio de fraudes financeiras. Um transporte arriscado, principalmente diante da pressão sobre o motorista ao se deparar com uma blitz de rotina, ou pelos abusos de velocidade no trajeto, para compensar o preço baixo da corrida. Não há nem como ter certeza de que o condutor é habilitado. Há ainda motoristas de empresas que levam executivos ao aeroporto e, na volta, fazem um “bico” transportando passageiros até o Centro.

Em Confins, os perueiros são chamados de "piolhos", como explica um funcionário do balcão de informações da Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero). Ele alerta que o serviço não deve ser usado pelo passageiro e acrescenta que os aliciadores são monitorados pelas câmeras e cadastrados pela segurança da empresa administradora do terminal. A desenvoltura com que o grupo atua em frente à sala de desembarque de voos domésticos certamente não levanta suspeitas de que se trata de uma atividade irregular.

 

Na noite da sexta-feira, o Estado de Minas circulou na área por mais de uma hora e não percebeu qualquer ação fiscalizadora. Ao contrário, registrou passageiros sendo aliciados logo na saída da sala, sem que tivessem tempo para chegar ao setor de embarque dos táxis convencionais e especiais ou do ônibus executivo. No desembarque há um aviso quase imperceptível, por ficar atrás de quem sai da sala: "Para sua segurança não utilize transporte clandestino”. E, em meio ao barulho de uma noite agitada, esporadicamente o serviço de som divulga o mesmo alerta.

A disputa pelos passageiros deixa os aliciadores tão atordoados que nem sequer percebem que o repórter simula ter saído da sala de desembarque e logo lhe oferecem o serviço de táxi iregular. O repórter concorda e aponta que vai para a fila de embarque dos taxistas legalizados. Mas o aliciador não perde tempo: "Lá, vai pagar R$ 90. Aqui, posso fazer por R$ 75". Diante da indecisão do suposto passageiro, o ilegal pergunta qual o destino – é sugerido um hotel na Região Nordeste da capital – e ataca: "Faço por R$ 65". Ainda resistente, o repórter dá uma última cartada para ver até onde chega a concorrência desleal e diz que tem R$ 60 trocados. O acerto é fechado pelo valor. O táxi convencional cobra R$ 88 e o especial R$ 97 para deixar os passageiros no Centro de BH.

O repórter é levado ao estacionamento do aeroporto para o embarque na perua SpaceFox Confort, placa HFW **55 (o asterístico é para proteger donos de eventuais carros clonados). Quando perguntado se daria recibo, o aliciador não põe empecilho. Agora, de taxista, diz que é dono da empresa JSE Transporte Executivo. Ele informa ao motorista, a quem chama de Júnior, o valor de R$ 60 da corrida e recomenda que entregue ao passageiro um cartão com o contato da empresa.

O condutor é um jovem que trabalhava em telemarketing e há três anos dirige um dos carros de um tio fazendo o transporte de passageiros. "São pelo menos nove viagens por dia para Confins. Trabalho de domingo a domingo", diz, em meio à ligação que recebe do tio para pisar fundo, pois tem um cliente esperando no Centro de BH para ir ao aeroporto.

"Trabalho de 14 a 17 horas por dia e rodo uns 350 quilômetros. Às segundas e sextas-feiras o movimento é maior", afirma Júnior, que faz planos de mudar de ramo. O tio, segundo ele, há 15 anos leva executivos para o aeroporto e pega passageiros na volta. Ao fim da corrida, em frente ao hotel, ele dá um recibo, mas põe a placa de outro veículo, um táxi de Lagoa Santa, na Grande BH, da mesma marca e modelo. Curiosamente, os dois carros ainda não estão licenciados este ano por terem multas em aberto.

Multas
Na corrida pelo cliente, os “piolhos” não se importam em cometer infrações já na saída do aeroporto. O motorista do Vectra Elegance preto, placa HHM **20, de Betim, saiu do estacionamento e parou atravessado na pista em frente um dos setores de desembarque, na noite da sexta-feira. No prontuário do carro, cujo último licenciamento é de 18/8/2010, constam seis multas. Duas por estacionar de forma irregular, em Confins, além de exceder o limite de velocidade, entre outras.

A pressa dele, porém, era para não perder a passageira que, minutos antes, havia aliciado no setor de desembarque. Não bastasse o licenciamento vencido e as multas, se a passageira, por algum motivo, precisasse localizar o condutor, caso tivesse sido lesada ou agredida, teria dificuldade, pois, segundo o registro do Detran-MG, o endereço do veículo está desatualizado.

Fonte: EM