A cidade pelo para-brisa

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Um dos mais antigos taxistas da capital, Dario Bossi, de 81 anos, guarda histórias que o aproximam de figuras célebres, como o 131, presente em Memórias de um chaufer de praça

Devagar e sempre. Nesse ritmo – sem a velocidade dos tempos modernos, mas com a determinação de quem é mestre no ofício – o taxista Dario Bossi conduz a vida e o carro pelas ruas de Belo Horizonte. Poderia ser um taxista qualquer. Não o é. Aos 81 anos, é um dos mais antigos profissionais da capital nessa atividade. Ele guarda, no jeito mineiro, a classe dos antigos chauffeurs de praça e, na memória, casos surpreendentes, alguns beirando o tragicômico.

Morador do Bairro Cidade Nova, depois de quatro décadas na Cachoeirinha, também na Região Nordeste, Dario às vezes se esquece de detalhes, mas tem a seu lado a taxista aposentada Antônia, de 64, conhecedora e, em alguns casos, testemunha das histórias contadas pelo marido. São casados há 51 anos. “Ele tem um passado muito grande, dá um livro…”, diverte-se.

Num giro pela cidade, é possível conhecer os cantos preferidos de Dario, ouvir passagens peculiares e observar a forma cuidadosa como segue ao volante. Engana-se, no entanto, quem achar que os seus dias são permeados pela nostalgia – muito pelo contrário. Ele continua no batente diário das 6h às 14h e esbanja segurança, lucidez e bom humor. “Tirei a minha carteira de habilitação em 1949.

Naquela época, tudo era bem diferente, os bondes passavam na Avenida Afonso Pena, então coberta de fícus, que foram cortados na década de 1960, e com poucos veículos em circulação, a maioria nas cores preto ou azul e de fabricação norte-americana.”

Ao se iniciar na profissão, num Chevrolet 1941, preto, Dario tinha o seu ponto de parada cativo, de domingo a domingo, em frente à Feira de Amostras, onde foi erguido o terminal rodoviário. Desses velhos tempos, guarda a foto com a mãe Georgiana Siqueira Bossi, morta em 1977, tendo ao fundo seu táxi. Depois, duas filhas e quatro netos. “Nos anos 1940 e 50, era muito chique pegar um carro de praça, como os nossos eram chamados.

O preço das corridas a gente combinava antes, pois não havia taxímetro: 10 mil réis dentro da Avenida do Contorno e 15 mil réis fora dela.” Como se de repente visse um filme, lembra das senhoras elegantes de chapéu, os homens de terno, as famílias fazendo footing na avenida e, no carnaval, o corso com os jovens fantasiados.

Caminhos cruzados
Numa estrada virtual, mas sem conexão de tempo e espaço, as histórias de Dario se cruzam com as de outro taxista, Valdetário Bastos, conhecido como 131, personagem do livro Memórias de um chauffeur de praça, de Moacyr Andrade, um conjunto de crônicas publicadas no Estado de Minas na década de 1930. Bastos tinha o maior orgulho do ofício: “A única profissão que eu posso exercer de pronto é a de chauffeur.

Para essa, ninguém me trancará as portas. Tenho fé de que dela tirarei o necessário para salvar-nos de dificuldades. E todas as profissões honram”. Para o motorista dos anos 1930, discrição era a alma do negócio. “Uma particularidade de nossa classe: estar sempre em guarda contra todos os ardis dos maridos. Os chauffeurs podem atestar com segurança o alto grau de ciúme dos maridos. Não há um só motorista que não tenha sido solicitado, centenas e milhares de vezes, pelos maridos, a dar informações sobre suas esposas.”

O certo mesmo é que, em qualquer momento, o passageiro merece todo respeito, ser bem tratado. “A gente se torna meio psicólogo, vê gente desesperada entrando no carro, uns chorando, outros querendo silêncio. Transportamos vidas. Se a pessoa puxar conversa, entro no assunto. Se não, bico calado”, observa Dario. Há também o ineditismo, às vezes macabro, como há 28 anos. Uma família vinda do interior desembarcou na rodoviária, à noite, e o contratou para levá-la a São Paulo.

Estavam a mãe, na casa dos 80 anos, a filha, o marido e um cunhado. “A viagem seguiu tranquila até perto da Serra de Igarapé, quando a idosa morreu. Eu deveria ter parado o carro, chamado socorro, mas os familiares insistiram para continuarmos. Fiz o que pediram. Numa barreira policial, os agentes me pararam e expliquei que a mulher estava passando muito mal. Acreditando na situação, me liberaram na hora, mas fui até a capital paulista com a passageira morta”, conta.

A exemplo de Dario, o personagem Valdetário Bastos viveu experiências sinistras. E logo na primeira corrida, em plena madrugada. “Por volta das 2 e meia, o meu primeiro freguês apareceu. Passamos antes, como determinara, na Casa Goivo. O proprietário trouxe a coroa encomendada e a colocou no carro. Era rica, com compridas fitas roxas. Nelas, esta inscrição: ‘Ao inesquecível amigo Suzano, o último abraço do Sepúlveda’. Isso significava que o advogado, meu primeiro freguês, se chamava Sepúlveda – dr. Sepúlveda – e era íntimo amigo do morto. A coroa enorme foi acomodada ao meu lado, na boleia”.

Vida na capital
Natural de Conceição do Mato Dentro, na Região Central, Dario, descendente de italianos, cursou apenas as quatro primeiras séries do “grupo escolar”. Mudou-se para BH aos 13 anos, deixando a fazendinha dos pais, localizada perto da famosa Cachoeira do Tabuleiro. Na capital, depois de trabalhar numa lapidação de pedras preciosas, tirou carteira de motorista e seguiu outro caminho. Em 1952, solteiro, transferiu-se para o Rio de Janeiro (RJ), capital federal e sinônimo de novas oportunidades. Virou motorista de ônibus, morou na antiga Praça 11 e no Bairro do Flamengo.

No Rio, Dario presenciou fatos históricos. Viu nas ruas a multidão chorando a morte do presidente Getúlio Vargas (1882-1954) e da “pequena notável” Carmen Miranda (1909-1955), a transferência da capital para Brasília (DF), em 1960, as festas de rua. “Sabe como é, a gente estava sempre trabalhando, não dava para ver tudo…”, desculpa-se com um sorriso.

De volta a Minas, em 1969, Dario encontrou a capital bem mudada, em crescimento permanente. “Gosto demais daqui, e dou nota 10 para Belo Horizonte. É uma cidade nobre”, afirma com orgulho. Num passeio para os turistas, que roteiro não pode faltar? Ele não hesita: “Em primeiro lugar, a Pampulha, construída na década de 1940.

Passaremos também pelo Jardim Zoológico, o Parque Ecológico Francisco Lins do Rêgo e o câmpus da UFMG. Depois, subiremos a Afonso Pena, com a Serra do Curral ao fundo, em direção ao Parque das Mangabeiras e, finalmente, o Bairro Belvedere.”

Dario conta, orgulhoso, que nunca sofreu acidente nem bateu o carro. Em 1983, foi assaltado, embora sem consequências dramáticas: “A corrida era para o Taquaril, os bandidos puseram o revólver na minha cabeça e me fizeram entrar no porta-malas. Com o meu táxi, assaltaram uma distribuidora de gás, mas, felizmente, não me machucaram”.

Há passageiros perigosos e há os distraídos. Numa corrida, um homem deixou uma máquina fotográfica no banco traseiro. “Eu já estava longe quando notei o equipamento. Então, como tinha visto ele entrando num prédio, conversei com o porteiro, que o localizou. Ele me agradeceu muito”.

Valdetário Bastos também considerava o cliente um rei. E se esmerava no trato. “Doutor é o tratamento universal que os chauffeurs dão aos fregueses. Doutor e coronel, conforme a cara, as maneiras, a roupa. Raramente se enganam”.

A gente se torna meio psicólogo, vê gente desesperada, uns chorando, outros querendo silêncio. Transportamos vidas. Se a pessoa puxar conversa, entro no assunto. Se não, bico calado - Dario Bossi, taxista, de 81 anos, com carteira de habilitação desde 1949

Doutor é o tratamento universal que os chauffeurs dão aos fregueses. Doutor e coronel, conforme a cara, as maneiras, a roupa. Raramente se enganam - Valdetário Bastos, personagem do livro Memórias de um chauffeur de praça, de Moacyr Andrade, publicado na década de 1930

Fonte: EM