Táxi adaptado tem pouca demanda em BH

Imprimir

Taxistas com veículos adaptados para cadeirantes estão circulando com liminar para evitar a exclusividade exigida pela lei e transportar também outros passageiros.

Depois da última licitação, Belo Horizonte passou a contar com 60 táxis adaptados, que têm de cumprir jornada das 7h às 17h, de segunda-feira a sábado, para atender só quem tem dificuldade de locomoção. Das seis empresas licenciadas, cada uma com 10 veículos, uma recorreu à Justiça para transportar qualquer passageiro nesse horário. A BHTrans informou que foi notificada e está cumprindo a decisão da Justiça. Segundo a empresa, com base no Censo 2010 do IBGE, a capital tem 165 mil pessoas com dificuldades para locomoção.

 

A quebra da exclusividade preocupa quem precisa do serviço, como Marisa Consolação Paes, de 58 anos, que leva ao hospital a mãe, Laurides Antunes Paes, de 82: “A gente sempre telefona uma hora antes do compromisso para pedir o táxi, justamente para chegar no horário da consulta, pois muitas vezes não não há veículo adaptado disponível na empresa. Se todo mundo começar a usar o táxi adaptado, pode ficar mais complicado”.

Com a criação do serviço de táxi adaptado, Laurides passou a sair mais de casa. “Usamos táxi o tempo todo para ir ao médico, shopping, igreja e visitar parentes”, afirma Marisa, que antes levava a aposentada no seu Gol, mas ela reclamava de muitas dores durante o trajeto. “Hoje ela anda tranquila, sem dor na coluna. Eu não aguentava colocar minha mãe no carro, mesmo com a ajuda da cuidadora de idosos. Agora, é tudo automático e o taxista ajuda”, disse.

Taxista há 28 anos, Lúcio Pimenta, de 54, trabalha com liminar e pega qualquer passageiro. Ele faz propaganda do serviço especial pelas redes sociais e deixa cartões em clínicas e hospitais. “A demanda ainda não é tão grande para pagar o investimento. Tenho três clientes fidelizados e não dá para ficar o dia todo só esperando passageiros com necessidades especiais. Pela manhã, ganho a minha diária, porque alugo o carro, e à tarde tento atender só eles.”

Lúcio trabalha para uma empresa licenciada e fica num ponto no Bairro Carlos Prates. Em parceria, empresas e cooperativas recorreram à BHTrans pedindo adequação da terminologia usada para o serviço: de atendimento exclusivo para atendimento preferencial.

Segundo Bruno Simões, presidente do Sindicato das Locadoras de Táxi e proprietário da LOCBH, a média é de cinco atendimentos por dia. Ele diz que cada carro custou R$ 90 mil, 35% a mais do que o previsto na licitação, e que o movimento é fraco, quase quatro meses depois. “Queremos que a BHTrans mude o termo, para evitar essa corrida à Justiça. Investimos quase R$ 1 milhão e ainda estamos sem retorno porque a demanda é muito pequena. Não dá para considerar que todos os cadeirantes andem de táxi, um serviço muito seletivo. Em dia bom, fazemos entre 10 e 15 atendimentos. “Os taxistas precisam completar a jornada à noite”, conta.

Lúcio não trabalha mais à noite, depois de ter sido assaltado duas vezes. Embora considere baixa a procura, ele recebeu elogios pelo carro confortável, espaçoso e adaptado e diz que o serviço é bastante útil para portadores de necessidades especiais e idosos. “No veículo convencional, eu tinha que pôr a cadeira de rodas no porta-malas, era desconfortável para o passageiro. As mulheres ficavam constrangidas, porque eu tinha que ajudá-las a entrar no carro.”

Para usar o carro da locadora, Lúcio paga diária de R$ 140. “O que ganho além disso é meu e ainda pago o combustível. Se eu  ficar só por conta, vou pagar para trabalhar”, diz o taxista, lembrando que o cadeirante é cliente preferencial e tem prioridade no atendimento.

Hospitais
Jefferson de Castro e Silva, de 47, também trabalha para uma empresa de táxis adaptados. Quando não está com passageiro, aguarda em frente a hospitais ortopédicos, onde há grande movimento de pessoas com cadeira de rodas. Ele não tem liminar para pegar outros passageiros: “Não posso nem parar para quem não é cadeirante. O fiscal da BHTrans retirar o passageiro e reboca o carro”. A tarifa não é diferenciada. “Faço cerca de 10 corridas por dia e tenho muito tempo ocioso, parado”.

O Doblò dele é novo, tem piso rebaixado e sistema automático de trava de cadeira de rodas. “O primeiro estágio da trava da cadeira fica atrás do banco da frente e puxa a cadeira de rodas para dentro do veículo, subindo pela rampa instalada na porta traseira. O segundo módulo de travas prende a cadeira e o passageiro fica seguro, sem balançar”, explica. Além do cadeirante, o veículo tem lugar para mais duas pessoas, uma na frente, ao lado do motorista, e outra atrás, junto à cadeira de rodas. O carro ainda tem as laterais reforçadas, para proteger o passageiro em caso de colisão, e air-bag duplo. Também tem dispositivo que impede o funcionamento do carro com as portas destravadas.

Reavaliação
Bruno Simões conta que antes havia apenas um táxi adaptado. “Sou a favor de transportar outros passageiros em qualquer horário, desde que o portador de necessidades especiais seja o cliente preferencial. São 60 carros adaptados e a demanda é muito pequena”, disse Simões, que protocolou pedido para reavaliação do serviço na BHTrans. “Se houver um cadeirante no ponto de táxi, mesmo para uma corrida pequena, somos obrigados a atendê-lo”, afirma Bruno, que tem empresa com 10 carros adaptados.

“A estimativa da BHTrans é que carro faria em média 13 corridas por dia. Hoje temos duas centrais de táxis adaptados e as empresas recebem apenas cinco ou seis chamadas diárias. Os carros ficam parados o dia todo”, afirmou.

Fonte: EM